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Rock São Paulo #1

Há algum tempo atrás, apesar dos mais saudosistas darem pulos da minha altura com o que direi, a cena independente brasileira era bem parecida com o que temos hoje. O esquema, pelo menos, é muito semelhante: a banda grava, divulga, dá show e, lindo, todos se divertem.



Pense bem, antes gravávamos (em péssima qualidade e condições, admito), reproduzíamos as músicas em fitas k7, "xerocávamos" a arte da capa, feita geralmente com colagem de fotos e recortes de revistas e jornais, datilografávamos o nome das músicas e o endereço/telefone de contato, marcávamos um showzitcho em um boteco qualquer com bandas de camaradas de bar/escola/rua, montávamos uma mesa no show onde vendíamos as fitinhas, adesivos e camisetas.



Com sorte, através desses shows e do intercâmbio de bandas entre as cidades e estados, que geralmente eram feitos do próprio bolso, sem cachê, por cerveja mesmo, descolávamos uma resenha da nossa demo em algum fazine, jornal ou até mesmo a participação em alguma coletânea de algum maluco que se arriscava com um selo independente.



Depois o nome da banda corria de boca em boca, de carta em carta, de zine em zine, matéria em matéria, até que quando você menos esperava, seu show estava lotado de conhecidos e outros nem tanto, cantando e pedindo suas músicas.



Percebem as similiaridades com hoje? Os processos mudaram, mas a fórmula é a mesma.



Hoje ao invés de gastar uma grana pra gravar uma fita demo, você compra uma câmera, filma seu ensaio e joga no YouTube.
Ao invés de montar uma barraquinha no seu show com amigos, você cria uma comunidade no Orkut, chama seus amigos pra fazer um volume e "spameia" meio mundo com seu link do MySpace, onde tem as músicas que você gravou com sua placa onboard e algum software de drum machine.
Com alguma sorte, sua música chega até algum maluco que tenha um site, blog, broadcast e que fala bem da sua banda.
E quando você menos espera, seu profile tem mais de 5000 visitas e um monte de gente baixando suas músicas do Trama Virtual.



Viu só, igual! =] haha



Particularidades à parte, onde quero chegar é mais precisamente há 10 anos atrás, quando um cara, desses malucos que comentei ali em cima, criava um dos mais importantes fanzines da cultura independente: o Antimídia. Esse cara, Nenê Altro, chegou até nossa casa quando ainda fazíamos parte do movimento (sim, era sim um movimento) indie / guitar / pós-punk que tomou conta de Curitiba em meados da década de 90 e resistiu até 2000 e poucos.



Nós éramos punks envelhecendo e conhecendo novas vertentes musicais. Fanzines, cartas, demos, programas de rádio, jornais e a visita das próprias bandas de fora eram nossa fonte de informação do que acontecia no restante do mundo. E ao ler o primeiro parágrafo do editorial do Antimídia #1, já sacamos que o negócio lá em São Paulo era bem diferente do que tínhamos por aqui.



Como tudo em Curitiba tinha um delay de SP de mais ou menos um ano, ou seja, toda nova onda de lá demorava um ano pra pegar aqui, sabíamos que aquilo que tinha naquele fanzine tão foda, era além de diferente de tudo que rolava por aqui, o caminho que a cultura independente tomaria. E batata, um ou dois anos depois (pode ter sido mais tempo, eu sou lesada e datas não é comigo), o punk rock / hardcore paulistano invadia Curitiba.



Nesse meio tempo, o tal indie / guitar / pós-punk e adjacentes, ia sucumbindo nas drogas e egos por aqui. Por alguma sorte (ou senso de responsabilidade, sei lá), nós não. Pelo contrário, fomos acolhidas por essa "nova galera" que nos convidava para fazer shows com eles, mesmo nossas músicas sendo tão diferentes do que levava pessoas assistirem a um show de hardcore.



Nossas idéias também eram muito parecidas, exceto por alguns conceitos, como cuidar e zelar pelo próprio corpo, sem fumar, beber, trepar, coisa que definitivamente não ornava (pros não caipiras: ornar = combinar). Mas por sorte nossa, dos fabricantes de camisinha, de tabaco e álcool, isso durou pouco. E de qualquer forma, o punk, a música boa, que mudava o mundo e as pessoas, o DIY, a arte, estavam lá.



Mister Nenê, durante esse período, foi o símbolo dessa loucura toda. Além do Antimídia, que bombava Brasil afora, criou seu próprio selo (Teenager In A Box), sua banda (Dance Of Days), tocou, arrastou multidões, fãs, lançou um livro e só não sei se já não fez um filme pornô.



Por sorte nossa, esse cara tem formiga no tarará (como diria meu pai) e agora volta com sua mais nova empreitada, a Anti Reckordz. Mantendo a mesma ideologia contida naquele primeiro editorial, Nenê lançou essa semana a coletânea cooperativa Rock São Paulo #1. Um filé mignon pra quem sabe que mudar o mundo é simples, basta dar a cara à tapa e fazer.



Ah, e em breve, nos mesmos moldes - com a diferença de que agora serão bandas de todo o país - uma nova coletânea: MANUAL DE RESISTÊNCIA #1 – 20 BANDAS NACIONAIS DE ROCK INDEPENDENTE. Nós, com muito orgulho, teremos a honra em fazer parte. =]



Eu sei que essa sessão do site é de resenhas e acho que você percebeu que não tem uma só música comentada aqui. Mas esse fato histórico, o lançamento da primeira coletânea da Anti Rekordz, merece (no mínimo) uma página só pra isso.



Confira abaixo a tracklist e compre com as próprias bandas. Nada mais punk e lindo do que isso...



Rock São Paulo #1

Krias de Kafka - Tunfá
Ventura - De volta outra vez
Nene Altro e o mal de Caim - O lado errado
Cardinal - Ranzinza
Banquete - Onde
Enjoy - O meu lugar
Fodata - Loucura
Slapkid - Em busca da verdade
Cronics A Lie - Amanheceu e o rouxinol ainda estava vivo
Fifty Guard - Believe
Beer - Cansei
Aivin - As flores
Lascivo - Você foi tão...



Conheça e aprecie, sem moderação:

 

NeneAltro.wordpress.com


Veja também:



Autor: Rety
Publicada em: 07/04/2010


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